O dia tinha perdido toda a graça. Eu já sabia que isto ia acontecer, mas não esperava que fosse tão cedo. Desde que os tratamentos começaram, que tenho tentado postular no fundo das minhas emoções o facto da minha invejada cabeleira se perder. Para dizer a verdade, tenho passado mais tempo deitada a descansar ou com os olhos fechados, do que a fazer outra coisa. Não são apenas os efeitos secundários do tratamento, como o cansaço, as náuseas e a perda de cabelo, mais recentemente, mas o facto de agora já não me sentir feminina perante o meu marido. Como vai ser daqui a pouco tempo quando ele me estiver a acariciar e vir que eu tenho peladas na minha cabeça?
Sinceramente, não penso que ele continuo a dizer que eu sou a mulher mais bonita deste mundo, porque a verdade é que não sou.... como posso ser sendo CARECA?! Aquilo que me orgulho está a perder-se e eu não posso fazer nada, a não ser ouvir as palavras consoladoras daqueles que não experienciam na própria pele o que é ter cancro e deixar de se sentir feminina.Oh, por favor, deixem-se dessas frases já feitas de que o cabelo vai crescer, eu quero é o meu cabelo agora para poder lutar contra a doença, para poder fingir a vida que antes tinha. Gostava de viver na ilusão, gostava de ignorar o problema, a doença, sei lá, fugir a estes sentimentos difusos, mas não posso.
Cada vez que passo a mão pela cabeça acordo para a realidade da minha vida, sou uma doente careca com cancro, que deixou de ser atraente, de quem todos têm pena.
Eu não tenho pena de mim, odeio que me vejam como fraca, posso ser fútil e querer conservar o meu cabelo, afinal que mulher não gosta de ter uma figura vistosa?
E quando me viro para o meu marido, pergunto-me onde vou buscar a mulher que ele conheceu, por quem se apaixonou, se eu mesma não me encontro a mim mesma......

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