sábado, 24 de abril de 2010

Elas que são colheres que se entendam.

Normalmente utilizamos o garfo para quase todas as refeições. No entanto, as colheres servem para devorar os mais deliciosos e cremosos pratos. Tudo o que seja mousse ou geleias. A colher grande é crente na mentira que lhe contam, por ser mais vistosa tem um impacto que a colherzinha ou o garfo. Mas não, de facto não é verdade que aquele mastro seja um veículo de boas sensações gustativas nas pessoas.
Já viram a viagem que estes talheres percorrem todos os dias, desde o momento em que saiem do armário, passando pelo momento mais importante, auxiliando-nos, indo por fim para a máquina de lavar Realmente, se não fossem eles, teríamos preservado hábitos de populações primitivas, comer com as mãos. Não digo que por vezes não seja mais satisfatório poder dar aquela chupadela depois de estarmos pegajosos, mas não posso deixar de lhes dar o devido crédito. E a competitividade que existem entre eles? Uns porque querem ficar à nossa vista, outros porque preferem ter mais descanso e não ser utilizados tão frequentemente. Se distribuirmos as colheres num mesmo espaço, ainda é pior, grandes e pequenas querem sempre a nossa atenção, empurram-se umas às outras para o brilho ofuscar a outra.

Muitas vezes a raquítica e discreta colherzinha vem em auxílio do garfo para o pedaço final. É bolo de bolacha. Quem não gostava de inscrustar a sua "METALicidade" no mais macio bolo?
No fim todos estão sujos, o garfo de imparcialdade,a colher grande de azia e a pequena de satisfação.É altura própria para se dizer, elas que são colheres que se entendam.

Conversa sobre Carapaças


Quando saio da minha carapaça, deparo-me com uma triste realidade, as pessoas são cada vez mais imaturas, instáveis e mais difícies de agradar. Continuo sem saber a quem recorrer, não me identifico com a maioria delas, não sei; não é por umas terem uma carapaça mais bonita que a minha..... ou mais adornada, todos nós somos diferentes.
No outro dia, pude constatar na diversidade de carapaças que por aí existem. As grandes, pequenas, raquíticas, encurvadas, esbeltas, mas cada uma  estava colorida com pormenores só seus, tornava-as mágicas. Isso satisfez-me, fez-me ganhar o dia, saber que, por um instante, continuamos a não ser cópias uns dos outros e onde quer que eu vá registo novas carapaças na minha memória fotográfica.
Hoje estou triste, ou talvez seja melhor dizer, desapontada, não com a generalidade das pessoas, mas com as carapaças mais jovens e aquelas que se estão a formar. Gosto de pensar que é apenas uma infíma parte da população que é imatura, materialista, egoísta etc, no entanto, começo a ter uma amostra, dentro do meu estudo estatístico mental, bastante elevada.
Para isso, não é preciso conhecer as carapaças profundamente, basta uma troca de palavras, ver o seu comportamento os gestos, até mesmo os silêncios. E de quem é a culpa? Será da geração dos meus pais que mimou demasiado os filhos e não os preparou para o mundo? Será também nossa, dos jovens? Será que para crescermos é preciso ter algum tipo de dor para ver a vida com outros olhos?!
NÃO SEI!!!!!! Talvez, eu e aquela generalidade que eu quero acreditar que existe, possamos remar contra a maré. Até lá, muito músculo temos que ganhar para fazer face a tantas horas no mar!!!!!!!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Momentos


Momentos. A vida é feita de momentos. Pequenos suspiros saborosos e doces que passam por nós sem darmos conta. Momentos de adrenalina, excitação, que nos impelem para cometer as acções mais inconsequentes das nossas vidas. Aquelas que não são pensadas nem ponderadas nem um instante; momentos em que acreditamos que somos intrasponíveis e que daí em frente a nossa vida só tem subidas.
No entanto, chega uma altura em que suspiramos mais profundamente, devo mesmo dizer, respiramos e ganhamos a consciência de que o "tal" momento passou enquanto estavámos a dormir a nossa sesta diária.
Seguem-se os dias normais, com pequenas brechas mais positivas, mas nada que nos faça dar pulos de felicidade ou vontade de conquistar o mundo num veleiro.
Nos pequenos grandes suspiros amargos e salgados, a vida desmorona-se e todos os planos de conquistar o mundo num veleiro são esquecidos. Queremos deitar a cara na almofada e ficar ali aninhados, esperando que o sal das lágrimas se torne menos salgado e o tempo proteja as boas recordações e não distorça as amargas.
A minha vida é feita de momentos, o que a torna com tanto sentido e especial. Não existem alturas perfeitas, pessoas perfeitas, circunstâncias, acções etc, mas posso fazer com que todos os momentos sejam os "tais"!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Relato de uma mulher com cancro

Quando estava a passar a mão pelos meus lindos cabelos, um punhado deles fica arragado a ela.
O dia tinha perdido toda a graça. Eu já sabia que isto ia acontecer, mas não esperava que fosse tão cedo. Desde que os tratamentos começaram, que tenho tentado postular no fundo das minhas emoções o facto da minha invejada cabeleira se perder. Para dizer a verdade, tenho passado mais tempo deitada a descansar ou com os olhos fechados,  do que a fazer outra coisa. Não são apenas os efeitos secundários do tratamento, como o cansaço, as náuseas e a perda de cabelo, mais recentemente, mas o facto de agora já não me sentir feminina perante o meu marido. Como vai ser daqui a pouco tempo quando ele me estiver a acariciar e vir que eu tenho peladas na minha cabeça?
Sinceramente, não penso que ele continuo a dizer que eu sou a mulher mais bonita deste mundo, porque a verdade é que não sou.... como posso ser sendo CARECA?! Aquilo que me orgulho está a perder-se e eu não posso fazer nada, a não ser ouvir as palavras consoladoras daqueles que não experienciam na própria pele o que é ter cancro e deixar de se sentir feminina.
Oh, por favor, deixem-se dessas frases já feitas de que o cabelo vai crescer, eu quero é o meu cabelo agora para poder lutar contra a doença, para poder fingir a vida que antes tinha. Gostava de viver na ilusão, gostava de ignorar o problema, a doença, sei lá, fugir a estes sentimentos difusos, mas não posso.
Cada vez que passo a mão pela cabeça acordo para a realidade da minha vida, sou uma doente careca com cancro, que deixou de ser atraente, de quem todos têm pena.
Eu não tenho pena de mim, odeio que me vejam como fraca, posso ser fútil e querer conservar o meu cabelo, afinal que mulher não gosta de ter uma figura vistosa?
E quando me viro para o meu marido, pergunto-me onde vou buscar a mulher que ele conheceu, por quem se apaixonou, se eu mesma não me encontro a mim mesma......

Eu não existo sem você- Vinicius de Moraes

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim


Que nada nesse mundo levará você de mim

Eu sei e você sabe que a distância não existe

Que todo grande amor

Só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor

Não tenha medo de sofrer

Que todos os caminhos

Me encaminham pra você



Assim como o oceano

Só é belo com luar

Assim como a canção

Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem

Só acontece se chover

Assim como o poeta

Só é grande se sofrer

Assim como viver

Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim

Eu não existo sem você

Alentejo

Por entre as ramagens baixas e verdis, vislumbrei ao longe, a paisagem do meu Alentejo.
Terra solarenga e plana que, por entre as oliveiras e os cantares das suas gentes, me leva até à nostalgia dos meus antepassados. Sento-me, como muitos outros o fizeram, debaixo de uma árvore, em plena hora de calor. O sol faz uma onda, lá bem ao fundo, uma ilusão forte que queima os meus olhos e faz com que evite olhar para o horizonte. Trago comigo tudo o que preciso para as próximas horas, a água, o pão esfregado num pouco de alho e regado com azeite e proponho-me a relaxar.
Não será difícil fazê-lo, a agitação das cidades grandes ficou para trás, o Alentejo é outro mundo ainda por descobrir. Os carros passam muito de vez em quando e, eu tenho tempo para descansar um pouco.
Quando estou de regresso a casa, pela estrada mais próxima, encontro as pessoas conhecidas, quer isto dizer, toda a gente, senhores mais velhos com os seus boinas na cabeça, senhoras a conversar à porta de casa, miúdos a brincar nos jardins e, de repente pergunto-me, olhando para os olhos dos mais velhos, Será que aquelas mãos calejadas pelo trabalho do campo trocariam a vida pacata do nosso Monte Alentejano, pela agitação e indiferença da cidade?
Eu, estendo os meus ramos a outras paragens, mas as minhas raízes estão enterradas no Celeiro de Portugal, onde ainda se encontram gentes de fundo genuíno e bom.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Amor de veludo


Depois de me envolver nos seus longos e perfeitos braços, começou a acariciar, com a sua mão esquerda, o meu rosto que ele costumava chamar de veludo.
O tempo tinha parado para ambos. Estávamos agora fixos no olhar um do outro, na paixão e segurança que mutuamente nos transmitíamos.
Devagar, fomos aproximando os nossos rostos e entrelaçando as mãos. Eu conseguia sentir o calor que as suas mãos emanavam. Parecia que estavam a arder e, eu ardia com elas, à medida que gentilmente, ele percorria os meus braços e o meu rosto.
Ardia por dentro de desejo e paixão para que o nosso amor se fundisse num primeiro beijo, aquele que selaría a caminhada que juntos percorreríamos.
                                                                (..............)
Agora pertencia-lhe. Sabendo que seria livre de tomar as minhas decisões, sabia no mais profundo do meu ser, que não mais seria livre tal como em criança.
Agora, era leal a este amor, a este grande amor, impregnado nos meus ossos, na minha pele, nas minhas palavras.
Não queria deixar de fazer parte dele, mesmo que fatalmente isso me pudesse trazer sofrimento, caso um dia ele partisse.
Não conseguia não depender daquele amor que era um vulcão em fúria, que me fazia querer mais e mais, divinamente mais vida!